terça-feira, 29 de maio de 2012

SOBRE A RADIO CLUBE DE SOROCABA

CENA DE TERRA SEMPRE TERRA

Trecho de um capítulo de Terra Sempre Terra, de Sidney Carboni.

LINDAURA - (MIRANDO-SE NO ESPELHO, AMARGURADA) O espelho num me dexa minti: ainda sô uma mulher bunita!... Minha pele é viçosa, meus zóio num perdeu o brio e meus cabelo num embranqueceu, apesar da vida miseráve que levo, neste fim de mundo, onde num passo duma iscrava dessa corja de matuto! (T) Inda bem que isso tá por poco! Amanhã a esta hora, Abílio e eu vamo tá bem longe deste lugar mardito! (SONHADORA) Ah, Abílio, Abílio... por que ocê apareceu tão tarde na minha vida? Se a gente tivesse se conhecido antes d'eu me casá, as coisa num seria tão complicada!... Vamo tê que fugí pra podê sê filiz! (T) Mais isso num importa. Só me casei cô Basílio porque ele prometeu que a gente ia vivê na cidade, mas o disgramado me inganô! Ele nunca vai dexá esta terra mardita, tá inraizado aqui quem árvre velha!
BASÍLIO - (VINDO PARA O MICROFONE) Inda num tá pronta, Lindaura?
LINDAURA - (SECA, RÍSPIDA) To, sim, num tá vendo?
BASÍLIO - (ADMIRADO) Meu Deus, como ocê bunita! Eu sabia que esse vistído ia ficá bem nocê, pur isso é que comprei.
LINDAURA - (AZEDA) Vistido barato, de chita, mais próprio pra filha de um colono do que a pra mulher do dono do sítio!
BASÍLIO - Foi o que eu pude comprá! Ocê sabe que o dinhero tá curto, ainda tamo longe da colheita e.../
LINDAURA - (CORTA, COM RAIVA) A colheita, a colheita... é só isso que ocê sabe dizê. Tudo aqui depende da colheita, como se ela fosse grande coisa!
BASÍLIO - (ESPANTADO) Mais... o que deu nocê?
LINDAURA - (EXPLODINDO) Eu num aguento mais este lugar, Basílio!... Quando nóis se casemo ocê me prometeu que a gente ia vivê na cidade, e no entanto, cada dia ocê se inteira mais neste sítio mardito...
BASÍLIO - Num fale assim, é dele que nóis vive!
LINDAURA - E ocê chama isto de vida? Ocê me inganô direitinho...
BASILIO - Um dia nóis vai vivê na cidade, tenha um poco de pacência.
LINDAURA - Pacência? Pois a minha já se isgotô, faiz tempo. Me cansei de vivê neste mato, rodeada de bicho e dessa corja de matuto... (T) Eu quero outra vida, intende? Quero vê gente bunita, civilizada...
BASÍLIO - Ocê anda sonhando demais, isto sim!
LINDAURA - Sonhá num é proibido. Meus sonho são lindo, mais minha realidade é feia. Sonho com príncipe e acordo ao lado de um marido que chera vaca e repolho!
BASILIO - Ocê pensa que eu num quero te dá uma vida melhor? É por isso que trabalho de sor a sor. Tudo tem seu tempo, nóis ainda vai vivê na cidade...
LINDAURA - É melhor ocê num dizê mais nada, mesmo porque isso agora num adianta mais. Eu já tomei uma decisão...
BASÍLIO - Que decisão?
LINDAURA - Nada, nada, bobage...
BASÍLIO - O que é que ocê tá matutando aí nessa cabeça, hein?
LINDAURA - Já disse que num é nada. E não me amole. Num sabe quanto lucra um hóme calado?
BASILIO - O hóme calado mais se assemelha a um burro.
LINDAURA - Há otros que mais se assemelha falando.
BASÍLIO - (SUSPIRANDO - TENTANDO SER CARINHOSO) Lindaura, hoje é o dia do vosso aniversário... num vamo brigá mais! Nossos amigo tão tudo lá no terrero, pra te dá os parabéns... Faça uma cara alegre e num vamo dexá eles esperando.
LINDAURA - (SUSPIRA, ENFADADA) Como se essa gente me interessasse!... Mais o que é que eu posso fazê?
BASÍLIO - Mais antes de nóis ir se encontrá co’eles, eu queria te dá esta fror.
LINDAURA - (INDIFERENTE) Ponha no vaso.
BASÍLIO - Eu quiria que ocê usasse no cabelo!
LINDAURA - (COM DESPREZO) Pra que, pra murchá? Ponha no vaso.
BASÍLIO - Eu colhi hoje de tardezinha. Tava no arto de um penhasco. E pra colhê eu tive que arriscá minha vida subindo no penhasco. Me agarrei tanto nas pedra que minhas mãos chegaro a sangrá. Bastava apenas um discuido e eu pudia rolá precipício abaxo, e ao invés da fror, iam trazê pocê os pedaço do meu corpo! (CARINHOSO) Mais eu pensava comigo mesmo: "Minha Lindaura vai gostá!
LINDAURA - Agradeço o sacrifício, mais num valeu a pena.
BASÍLIO - Nenhum sacrifício é suficiente pra te vê filiz, Lindaura!
LINDAURA - Se pra ocê filicidade é vivê interrado neste mardito sítio...
BASÍLIO - Ocê sabe que eu te amo!
LINDAURA - Sinto num podê dizê o mesmo. Meu amor por ocê acabo, já faiz um bão tempo...
BASILIO - (IRRITADO) Por acaso... ocê tem outro?
LINDAURA - (DESAFIANDO-O) E se assim for?
BASILIO - (AGARRANDO-A PELO PESCOÇO) Ah, disgraçada, eu acabo c'ao vossa
vida! (FAZENDO FORÇA)
LINDAURA - (SUFOCADA) Me largue, mardito... Você tá me su...sufo...sufocando! (TENTA GRITAR) Socor... socorr... socorro!!!